Revisado por Dra. Maria Fernanda Rocha Menezes · Cardiologista Pediátrica e Ecocardiografista · CRM-MG 80.650 · RQE 70.596 · RQE 70.602 · Última revisão em 9 de setembro de 2026.
Quase toda família chega aqui depois de ouvir um nome novo no consultório, como "sopro", "CIV" ou "canal arterial", e de digitá-lo na busca com o coração apertado.
Esta página reúne as alterações cardíacas mais comuns na infância, cada uma em poucas linhas: o que é, se costuma ser grave e o que normalmente se faz. Quando existe um texto completo no blog, o link está logo abaixo. Para avaliar qualquer uma delas em Montes Claros, a porta de entrada é a consulta com cardiopediatra.
A cada 100 nascimentos, 1 bebê nasce com cardiopatia congênita. É o defeito de nascimento mais comum que existe, e a maioria dos casos tem tratamento com excelente resultado.
Ouvir que o filho é uma criança cardiopata, ou receber um diagnóstico de cardiopatia em bebê recém-nascido, costuma soar como uma sentença. Quase nunca é. A maior parte dessas crianças cresce, brinca, vai à escola e chega à vida adulta. Muitas sem precisar de cirurgia nenhuma.
Sopro no coração
É de longe o motivo número um de encaminhamento ao cardiologista infantil, e o que mais assusta sem precisar.
Vale para qualquer idade, e a busca mais comum é a das mães de recém-nascido: sopro no coração de bebê. Sopro é apenas um som: o ruído do sangue passando dentro do coração, que o médico ouve no estetoscópio. Não é uma doença. É um achado de exame. Entre 50% e 70% das crianças terão um sopro audível em algum momento da infância ou da adolescência, e a imensa maioria é sopro inocente: coração absolutamente normal, sem nenhuma alteração estrutural.
O que diferencia um sopro inocente de um sopro que merece investigação é a característica do som, associada à história e ao exame da criança. Quando resta dúvida, o ecocardiograma resolve de vez.
Texto completo sobre sopro no coração da criança →
Comunicação interventricular (CIV)
É a cardiopatia congênita mais frequente. Trata-se de uma abertura na parede que separa os dois ventrículos, as duas câmaras de baixo do coração.
É o nome técnico do que quase toda família ouve como um furinho no coração do bebê, ou um buraco no coração. As duas expressões descrevem a mesma coisa, e o susto que elas causam costuma ser bem maior que o problema.
O tamanho é o que define tudo. CIVs pequenas são a maioria, não causam sintoma nenhum e uma parte importante delas fecha sozinha nos primeiros anos de vida, sem qualquer intervenção, só acompanhamento. As grandes sobrecarregam a circulação do pulmão, aparecem como cansaço nas mamadas e ganho de peso insuficiente, e costumam exigir correção.
Comunicação interatrial (CIA)
A mesma ideia, um andar acima: uma abertura entre os dois átrios. É o outro furinho no coração que aparece nos laudos, e vale a mesma observação da CIV: o nome assusta mais do que a condição.
Costuma ser silenciosa por anos. Muitas são descobertas por acaso, na investigação de um sopro. Quando é significativa, o fechamento é indicado, e hoje boa parte dos casos é resolvida por cateterismo, sem abrir o peito.
Persistência do canal arterial (PCA)
O canal arterial é um vaso que todo bebê tem durante a gestação e que deve fechar sozinho nos primeiros dias após o nascimento. Quando não fecha, chama-se persistência do canal arterial.
É bem mais comum em prematuros. O tratamento varia conforme o tamanho e a idade do bebê: alguns fecham com medicação, outros por cateterismo, outros ainda com cirurgia.
Estenose pulmonar e estenose aórtica
Estenose quer dizer estreitamento. Nesses casos, uma das valvas por onde o sangue sai do coração é mais estreita do que deveria, e o coração precisa fazer mais força para bombear.
Formas leves apenas são acompanhadas, às vezes por toda a vida, sem nenhuma restrição. As importantes são tratadas, com frequência por cateterismo, abrindo a valva com um balão.
Coarctação da aorta
Um estreitamento na própria aorta, a artéria principal do corpo. É uma das cardiopatias em que o diagnóstico durante a gestação mais muda o desfecho, porque a apresentação pode ser grave e súbita nos primeiros dias de vida.
Um sinal clássico, e simples de checar: pulsos fortes nos braços e fracos nas pernas.
Tetralogia de Fallot
É a cardiopatia cianótica mais comum. Cianótica quer dizer que o bebê pode apresentar coloração arroxeada nos lábios e nas extremidades, porque parte do sangue circula sem passar adequadamente pelo pulmão.
O nome assusta, e de fato é uma cardiopatia complexa, que combina quatro alterações. Mas é também uma das histórias mais bem resolvidas da cardiologia pediátrica moderna: com a cirurgia corretiva, feita nos primeiros meses de vida, a grande maioria das crianças chega à vida adulta.
Arritmias na infância
Coração acelerado, lento ou irregular. Em criança, a queixa costuma vir como "palpitação", "o coração dispara" ou, nos menores, um episódio de palidez e mal-estar sem explicação.
Boa parte das alterações de ritmo na infância é benigna. As que merecem atenção imediata são as que causam desmaio, especialmente durante o esforço físico, e as que aparecem em famílias com histórico de morte súbita em pessoa jovem. O exame de entrada é o eletrocardiograma.
Doença de Kawasaki
Não é congênita: é uma inflamação dos vasos que acomete crianças pequenas, geralmente abaixo dos 5 anos. Aparece como febre alta e persistente por vários dias, acompanhada de olhos vermelhos, manchas na pele, lábios rachados e mãos ou pés inchados.
Entra nesta lista porque pode afetar as artérias do coração, e porque o tratamento feito a tempo reduz muito esse risco. Febre alta de vários dias em criança pequena, com esse conjunto de sinais, merece avaliação sem esperar.
Febre reumática
Uma complicação tardia de infecção de garganta por estreptococo mal tratada, que pode lesar as valvas do coração. Ficou menos comum, mas ainda existe. É uma das poucas doenças cardíacas da infância que se previne com algo simples: tratar corretamente a amigdalite bacteriana, com o antibiótico completo, até o fim.
O que fazer com um nome novo em mãos
Se algum desses nomes apareceu num laudo do seu filho, guarde três lembretes:
- A gravidade não está no nome, e sim nos números. Duas crianças com "CIV" podem ter situações completamente diferentes. O tamanho, a repercussão e a idade mudam tudo.
- Guarde os exames. Comparar o antes e o depois é o que orienta o tratamento, mais do que qualquer exame isolado.
- A maioria não opera. Boa parte das cardiopatias diagnosticadas na infância é acompanhada, não operada. Uma parte fecha ou se resolve sozinha.
Para uma avaliação em Montes Claros, a consulta inclui exame físico, ecocardiograma e eletrocardiograma no mesmo lugar, com laudo da própria médica que atendeu.
Perguntas frequentes
Cardiopatia congênita é hereditária?
Na maioria dos casos não há uma causa hereditária identificável. O histórico familiar aumenta o risco e é motivo para antecipar o ecocardiograma fetal, mas a maior parte dos bebês com cardiopatia nasce em famílias sem nenhum caso anterior.
Meu filho tem sopro. Isso é grave?
Na imensa maioria das vezes, não. Entre 50% e 70% das crianças terão um sopro audível em algum momento, e a maior parte é sopro inocente: coração normal, sem doença. O ecocardiograma esclarece quando resta dúvida.
Toda cardiopatia congênita precisa de cirurgia?
Não. Boa parte é apenas acompanhada, e algumas alterações fecham sozinhas nos primeiros anos de vida. Entre as que precisam de intervenção, muitas são resolvidas por cateterismo, sem abrir o peito.
Uma criança com cardiopatia pode fazer esporte?
Depende da cardiopatia e da modalidade. Muitas crianças com cardiopatia praticam esporte normalmente; outras precisam de ajustes. A liberação é individual e deve ser feita pelo cardiologista que acompanha o caso.
Furinho no coração do bebê é grave?
Furinho no coração é como a família costuma chamar a comunicação interventricular (CIV) ou a interatrial (CIA), uma abertura entre duas câmaras do coração. O que define a gravidade é o tamanho, não o nome: as pequenas são a maioria, não causam sintoma e boa parte fecha sozinha nos primeiros anos de vida. As grandes precisam de correção, hoje muitas vezes por cateterismo.
Como as cardiopatias são descobertas?
Pelo ecocardiograma fetal durante a gestação, pelo teste do coraçãozinho na maternidade, pelo exame do pediatra nas consultas de rotina (muitas vezes a partir de um sopro) e pela investigação de sintomas como cansaço nas mamadas, baixo ganho de peso ou desmaio.
Fiz algo errado na gravidez?
Quase sempre a resposta é não. A formação do coração acontece muito cedo, em boa parte antes mesmo de a gestante saber que está grávida, e na maioria dos casos não existe causa identificável nem culpa.
Meu filho vai poder ter uma vida normal?
A maioria sim. A cardiologia pediátrica mudou muito nas últimas décadas, e hoje a grande maioria das crianças com cardiopatia congênita chega à vida adulta. O acompanhamento regular é o que sustenta esse resultado.