Eletrocardiograma em crianças: como é o exame

Por Dra. Maria Fernanda Rocha Menezes · 2 de setembro de 2026

Eletrocardiograma em crianças: como é o exame

Revisado por Dra. Maria Fernanda Rocha Menezes · Cardiologista Pediátrica e Ecocardiografista · CRM-MG 80.650 · RQE 70.596 · RQE 70.602 · Última revisão em 9 de setembro de 2026.

Poucas frases assustam tanto uma família quanto ouvir que a criança precisa fazer um exame do coração. No caso do eletrocardiograma, a preocupação costuma ser bem maior que o exame em si: ele dura poucos minutos, não dói e não oferece risco nenhum.

O que o eletrocardiograma faz

Cada batimento do coração é comandado por um impulso elétrico que percorre o músculo cardíaco em uma sequência precisa. O eletrocardiograma (conhecido pela sigla ECG) registra esse impulso e o transforma em um gráfico, o traçado.

É a partir desse desenho que o cardiologista avalia a frequência, o ritmo e o caminho que o estímulo elétrico percorre dentro do coração.

O exame dói? Dá choque?

Não. E é bom dizer com todas as letras, porque é a dúvida número um das famílias: o aparelho apenas escuta. Ele não emite corrente elétrica, não dá choque e não usa radiação.

Os adesivos colocados na pele funcionam como pequenos microfones do sinal elétrico que o próprio corpo já produz. A criança não sente absolutamente nada além do contato do adesivo na pele.

Como o exame acontece

A criança se deita e o profissional posiciona eletrodos adesivos no peito, nos braços e nas pernas. É pedido que ela fique quietinha por alguns instantes enquanto o traçado é registrado. Depois os adesivos são retirados, e acabou.

O registro em si leva menos de um minuto. Com o posicionamento e o preparo, o atendimento inteiro costuma durar de cinco a dez minutos.

Como preparar seu filho

A colaboração da criança melhora bastante a qualidade do traçado, e algumas atitudes simples ajudam:

  1. Explique antes, com palavras da idade dela: o médico vai colar adesivinhos para ouvir o coração, e não vai doer nada.
  2. Evite a palavra "exame" se ela costuma associar isso a agulha. Dizer que é uma "foto do coração" costuma funcionar melhor.
  3. Escolha roupa fácil de tirar, que dê acesso ao peito. Blusas de botão facilitam bastante.
  4. Não passe creme, óleo ou hidratante na pele no dia do exame, porque eles atrapalham a fixação dos adesivos.
  5. Leve um brinquedo, a chupeta ou o que costuma acalmar nos minutos de imobilidade.
  6. Com bebês, mamar durante ou logo antes do exame ajuda a manter a calma. Muitos dormem.

E se a criança chorar?

O exame continua possível, mas o movimento e a tensão muscular poluem o traçado, e às vezes é preciso repetir o registro. Vale a pena esperar alguns minutos, acalmar e tentar de novo, em vez de insistir durante um choro intenso.

É um contratempo comum e previsto na rotina. Nenhum profissional de cardiologia pediátrica se surpreende com uma criança chorando.

Quando o exame é indicado

O eletrocardiograma é solicitado em situações variadas, entre elas:

  1. sopro cardíaco identificado na ausculta;
  2. desmaio, principalmente quando acontece durante esforço físico;
  3. palpitação, a sensação de coração acelerado, descompassado ou "falhando";
  4. dor no peito relacionada a atividade física;
  5. histórico familiar de arritmia, morte súbita ou doença cardíaca em pessoas jovens;
  6. acompanhamento de cardiopatia já diagnosticada;
  7. avaliação antes de determinadas cirurgias;
  8. uso de medicações que podem afetar o ritmo cardíaco.

O que o ECG mostra e o que ele não mostra

O eletrocardiograma é excelente para avaliar ritmo e condução elétrica. Ele identifica arritmias, bloqueios, sinais de sobrecarga das câmaras cardíacas e condições específicas como a síndrome do QT longo e a síndrome de Wolff-Parkinson-White. São justamente as que podem passar despercebidas em uma criança aparentemente saudável.

Por outro lado, o eletrocardiograma não mostra a estrutura do coração. Ele não enxerga as válvulas, não mede o tamanho das câmaras e não avalia como o sangue circula. Para isso existe o ecocardiograma, que é um ultrassom.

Um exame mostra como o coração funciona eletricamente. O outro mostra como ele é por dentro. É comum que sejam pedidos juntos.

Por que o ECG de criança não se lê como o de adulto

Este é um ponto pouco conhecido fora da cardiologia pediátrica, e ele importa: o eletrocardiograma normal de uma criança não se parece com o de um adulto.

A explicação está na circulação antes do nascimento. No útero, a placenta funciona como um leito de baixa resistência e o ventrículo direito é o dominante: ele trabalha mais que o esquerdo. Essa dominância só se inverte depois do nascimento, conforme o forame oval e o canal arterial se fecham e o pulmão assume a circulação.

Por isso o traçado de um recém-nascido apresenta desvio do eixo para a direita, ondas R altas em V1 e ondas S profundas em V6. São achados que, num adulto, seriam considerados alterados. Também há diferenças na frequência: um recém-nascido bate entre 90 e 160 vezes por minuto, enquanto um adulto jovem fica entre 60 e 100.

Outro detalhe: a onda T é positiva ao nascer, torna-se negativa em V1 a V3 depois da primeira semana de vida e permanece assim até a adolescência. É o chamado padrão juvenil, perfeitamente normal na criança.

A leitura correta depende, portanto, de comparar o traçado com os valores de referência para aquela idade. Um eletrocardiograma absolutamente normal para um bebê de dois meses pode ser lido como alterado se comparado ao padrão adulto, gerando preocupação e investigação desnecessárias na família.

Eletrocardiograma antes de praticar esporte: é obrigatório?

Aqui a resposta precisa ser cuidadosa, porque circula muita informação imprecisa.

Toda criança ou adolescente que vai iniciar atividade física deve passar por avaliação clínica prévia: história pessoal, história familiar detalhada e exame físico. Essa parte é consenso, e é ela que identifica a maioria dos casos de risco, já que a morte súbita relacionada ao esporte quase sempre decorre de uma cardiopatia, conhecida ou ainda não diagnosticada.

Sobre o eletrocardiograma, a Diretriz em Cardiologia do Esporte da Sociedade Brasileira de Cardiologia recomenda a avaliação clínica somada ao ECG de repouso com o maior grau de recomendação para atletas competitivos profissionais. Já para crianças e adolescentes em geral, a diretriz pondera que o uso rotineiro do eletrocardiograma apenas para estratificar risco de morte súbita não se mostra especialmente útil.

Na prática, a decisão é individual: depende do nível de exigência do esporte, da história familiar e do que a consulta encontrar. É exatamente esse tipo de julgamento que a avaliação com o cardiologista pediátrico oferece.

Perguntas frequentes

O eletrocardiograma precisa de preparo ou jejum?

Não. A criança pode comer e manter a rotina normal. O único cuidado é não passar creme ou óleo na pele no dia.

A partir de que idade pode ser feito?

Desde os primeiros dias de vida. É um exame usado inclusive em recém-nascidos.

Se o resultado vier normal, está tudo bem?

Um traçado normal é uma informação valiosa, mas responde apenas à parte elétrica. Ele não descarta alterações na estrutura do coração, que exigem o ecocardiograma. A interpretação sempre se dá em conjunto com a consulta.

Quanto tempo demora para sair o resultado?

Varia conforme o serviço. Na Clínica Pequeno Coração, os laudos são elaborados pela Dra. Maria Fernanda e disponibilizados em até 24 horas, on-line e também na própria clínica.

Meu filho tem medo de médico. Como fazer?

Avise a equipe antes. Explicar o exame com antecedência, deixar a criança ver os adesivos, permitir que fique no colo e reservar um horário fora do sono ou da fome fazem grande diferença.

Leia também: Ecocardiograma infantil: como funciona, Ecocardiograma fetal: quando fazer e Eletrocardiograma infantil em Montes Claros.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. A indicação e a interpretação de qualquer exame devem ser feitas por um médico.

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