Dor no peito na criança: quando é do coração e quando não é
Por Dra. Maria Fernanda Rocha Menezes · 7 de setembro de 2026

Revisado por Dra. Maria Fernanda Rocha Menezes · Cardiologista Pediátrica e Ecocardiografista · CRM-MG 80.650 · RQE 70.596 · RQE 70.602 · Última revisão em 9 de setembro de 2026.
Poucas frases assustam tanto quanto ouvir do próprio filho: "mãe, meu peito está doendo". A cabeça de qualquer adulto vai direto para o coração, porque é isso que dor no peito significa quando se trata de gente grande.
Em criança, a conta é outra. E a diferença é grande o bastante para valer alguns minutos de leitura antes que o susto tome conta.
O número que muda a conversa
Entre as crianças e adolescentes que chegam ao pronto-socorro com dor no peito, menos de 1% tem uma causa cardíaca. É o que mostram os dois maiores estudos já feitos sobre o tema, e o que uma revisão publicada em 2024 no Journal of Clinical Medicine reafirma ao reunir a literatura disponível.
Ou seja: em mais de 99 de cada 100 casos, a origem da dor está em outro lugar do corpo. Isso não significa que a queixa deva ser ignorada. Significa que o ponto de partida não é o pânico.
De onde a dor costuma vir
As causas mais frequentes, em ordem:
- Parede do tórax: de 50% a 68% dos casos. Músculos, cartilagens e costelas. Entram aqui a costocondrite (inflamação da cartilagem que liga a costela ao esterno), o estirão de crescimento, esforço físico, tosse persistente e pancadas que a criança nem lembra de ter levado.
- Origem emocional: de 10% a 30%, com peso maior na adolescência. Ansiedade e estresse produzem dor real, sentida de verdade no peito.
- Respiratória. Asma, bronquite e infecções; a pneumonia responde por algo entre 3,7% e 9,3%.
- Digestiva: de 2% a 8%. Refluxo, gastrite e gases. A queimação atrás do esterno é confundida com dor cardíaca até por adultos.
- Sem causa identificada. Uma parcela relevante fica assim mesmo, e melhora sozinha.
- Cardíaca: menos de 1%.
Como costuma ser a dor que não é do coração
Alguns padrões são tranquilizadores. Dor de parede torácica geralmente:
- é bem localizada: a criança aponta com um dedo o ponto exato;
- piora ao apertar o local, ao respirar fundo ou ao mudar de posição;
- é em pontadas rápidas, de segundos, e não um aperto contínuo;
- acontece em repouso, na frente da TV, e não durante a corrida;
- já dura semanas ou meses sem que nada mais tenha mudado.
Quando a família consegue reproduzir a dor pressionando o peito da criança, isso aponta com força para a parede torácica, porque o coração não responde ao toque na pele.
Os sinais que mudam a conduta
Existe um conjunto pequeno de características que tira a queixa da categoria "provavelmente muscular" e pede avaliação com cardiologista pediátrico:
- dor que aparece ou piora durante o esforço físico, e alivia quando a criança para;
- dor acompanhada de desmaio ou quase-desmaio;
- dor acompanhada de palpitação, a sensação do coração disparado ou falhando;
- dor com falta de ar desproporcional à atividade;
- dor em aperto ou pressão, que irradia para o braço, o pescoço ou as costas;
- história familiar de morte súbita em pessoa jovem, cardiomiopatia ou doença coronariana precoce;
- criança com cardiopatia conhecida, antecedente de doença de Kawasaki ou síndrome genética associada ao coração.
O sinal mais importante não é a intensidade da dor, e sim o momento em que ela aparece. Dor que surge justamente durante o esforço muda a conduta, mesmo quando é fraca.
Quando procurar atendimento imediato
Leve ao pronto-socorro sem esperar se a dor no peito vier junto com:
- desmaio, ou perda de consciência durante atividade física;
- dificuldade importante para respirar;
- lábios ou extremidades arroxeados;
- palidez intensa com suor frio;
- coração muito acelerado que não normaliza com o repouso.
Fora dessas situações, a avaliação pode ser agendada com calma, começando pelo pediatra, que decide se o caso segue para o cardiologista.
O que acontece na avaliação
A maior parte do diagnóstico vem de duas coisas simples: a história bem contada e o exame físico. Em que momento a dor aparece, quanto tempo dura, o que melhora, o que piora, o que a família já percebeu.
Quando há indicação, o eletrocardiograma é o primeiro exame: rápido, indolor e sem choque. O ecocardiograma entra quando o exame físico, o histórico ou o eletro apontam para algo que precisa ser visto. Nem toda criança com dor no peito precisa de exame; a decisão é clínica.
Quando a dor vem da ansiedade
É bom dizer com todas as letras: dor de origem emocional não é dor inventada. O corpo produz sintomas reais a partir da ansiedade: respiração curta, músculos do tórax contraídos, percepção aumentada dos próprios batimentos.
Em adolescentes, esse é um dos grupos mais frequentes. Tratar como fingimento afasta o jovem e não resolve. Reconhecer a origem, descartar o que precisa ser descartado e oferecer o acompanhamento adequado resolve.
Perguntas frequentes
Meu filho sente dor no peito quando corre. É grave?
É a situação que mais merece avaliação, mesmo que a dor seja leve. Nem sempre é do coração (asma provocada pelo exercício é uma causa comum), mas é o cenário em que vale investigar antes de tranquilizar.
A dor vai e volta há meses. Preciso me preocupar?
Dor recorrente, sempre igual, sem sintomas associados e sem impacto na atividade da criança tem, na maioria das vezes, causa benigna. Ainda assim vale uma consulta, nem que seja para encerrar o assunto.
Criança pode ter infarto?
É extraordinariamente raro e praticamente restrito a situações específicas, como alterações congênitas das artérias coronárias ou sequela de doença de Kawasaki. Não é o que explica a dor no peito da esmagadora maioria das crianças.
Meu filho tem sopro e agora sente dor no peito. Tem relação?
Quase sempre são coisas independentes. O sopro inocente não causa dor. Ainda assim, a combinação justifica levar a queixa ao cardiologista pediátrico que acompanha a criança.
Preciso proibir educação física até investigar?
Se a dor aparece durante o esforço, ou vem com desmaio ou palpitação, suspenda a atividade intensa até a avaliação. Nos demais casos, restringir raramente é necessário, e essa decisão é do médico que examinou a criança.
Que exame diagnostica a causa da dor?
Não existe um exame único. Na maior parte das vezes o diagnóstico sai da conversa e do exame físico, e os exames servem para confirmar ou afastar hipóteses específicas.
Onde avaliar dor no peito infantil em Montes Claros
A avaliação começa pela conversa e pelo exame físico. É o que separa, na maior parte das vezes, a dor de parede torácica da dor que merece investigação cardíaca. Quando há indicação, o eletrocardiograma e, se necessário, o ecocardiograma são realizados no mesmo lugar da consulta, com laudo da própria médica que atendeu.
A Clínica Pequeno Coração atende crianças e adolescentes de Montes Claros e de todo o Norte de Minas: Janaúba, Salinas, Pirapora, Bocaiúva, Januária e Espinosa. Para quem vem de outra cidade, vale combinar consulta e exames no mesmo dia: basta avisar no agendamento. Os detalhes estão na página do cardiologista infantil em Montes Claros.
Leia também: Sinais de alerta no coração infantil, Eletrocardiograma em crianças: como é o exame e Eletrocardiograma infantil em Montes Claros.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica. Dor no peito acompanhada de desmaio, falta de ar intensa ou coloração arroxeada exige atendimento imediato.